Precisamos falar sobre o que as mulheres querem
Precisamos falar sobre o que as mulheres querem, com Silvia Marques, baseado na obra da autora Lionel Shriver
Reflexões acerca da aula ministrada pela psicanalista Silvia Marques na Casa do Saber, em julho de 2018: o mito da maternidade como ideal feminino.
A polêmica obra de Lionel em primeira mão nos apresenta a trágica história de Kevin, um adolescente dissimulado e manipulador. A trama se desenrola na problemática relação de Kevin com sua mãe, Eva, até que o ponto alto da história acontece e o garoto comanda um massacre em sua escola e em sua própria casa. Porém, por trás desse protagonismo, temos um outro ponto importante nas entrelinhas: o mito da maternidade como ideal feminino.
Em toda obra (livro e filme), podemos perceber a infelicidade de Eva com a maternidade. Durante sua primeira gestação ‒ a gestação de Kevin ‒, Eva mostra-se indisposta, infeliz e deslocada. Em determinada cena, quando várias mulheres grávidas reunidas em um vestiário conversam e demonstram felicidade com seus corpos, Eva mantém-se distante e desconfortável, preferindo ir embora do que ter que se submeter a mais alguns minutos ao lado de outras mães. Durante o parto, Eva está apática e nem mesmo seu marido ou os médios são capazes de perceber e acolher seu sofrimento, pois para eles e para todos ao seu redor, a questão da infelicidade na maternidade é um mito, não existe. Para a sociedade, ser mãe é um desejo inato de todas as fêmeas e o sofrimento gestacional é um crime contra a natureza feminina da mulher… Para a própria Eva os sentimentos invasivos são estranhos e incompreensíveis!
Depois que Kevin nasce, vemos Eva tentar se encaixar em seu papel de mãe, mas a criança, desde muito cedo, parece perceber a falta de conexão e carinho.
Com o pai, o pequeno Kevin é amoroso e falante. Com a mãe, mostra-se uma criança totalmente diferente, fria e manipuladora.
A obra apresenta uma relação perversa entre mãe-filho, dando-nos um soco no estômago. Em horas, Eva tenta aproximar-se de Kevin, em outras trata-o com desprezo, culpando-o pelo fim de sua bem sucedida carreira e pelo fim de sua liberdade. A liberdade, como também podemos notar ao analisar a vida de Eva, era o bem mais precioso que ela possuía antes de ceder aos desejos do marido para tornar-se mãe: viajava o mundo inteiro, conhecia outras culturas e mergulhava nos mais remotos lugares do mundo, ganhando dinheiro ao escrever sobre suas experiências como turista para “guias de viagens para quem tem pouco dinheiro”.
Contudo, apesar da péssima experiência com a maternidade, Eva engravidou novamente e desta vez as coisas não foram tão ruins como da primeira, pois as expectativas já repousavam em bases baixas. Sua relação com a filha mais nova dava-se de forma tranquila.
Eva atormenta-se durante toda a obra, tentando entender onde errou com Kevin e culpando-se pelos problemas e atos do filho, embora possamos perceber (mais no livro do que no filme), que ela tentou ser uma boa mãe de todas as formas que sabia. Tentou reproduzir aquilo que “boas mães” faziam, mas nada surtiu efeito em Kevin.
A sociedade buscou alguém culpar pelos atos terríveis do adolescente e Eva, assim como a Eva bíblica foi historicamente responsabilizada pelos pecados da humanidade, foi responsabilizada pela psicopatia de Kevin, tornando-se a perfeita pior mãe do país.
O mito da maternidade como ideal feminino e a depressão pós-parto é um tabu que habita muitas casas em todo o mundo. Onde há mulheres sendo mães, há possibilidade da doença existir, mas então por que o assunto é tão mal visto pela sociedade?
Como disse Silvia Marques, a depressão pós-parto é uma das doenças mais rejeitadas pela sociedade… mais ainda do que a depressão comum!
Existe uma crença de que todas as mulheres nascem sabendo como ser mães e que ao engravidarem, um botãozinho mágico é acionado e pronto, a mágica acontece, mas não existe botão mágico quando tratamos de seres humanos. A variedade de sentimentos, emoções, desejos e expectativas faz de cada um de nós um indivíduo único e, por esse motivo, cada mulher reagirá à gravidez de uma forma muito específica e singular.
Nem toda mulher com depressão pós-parto rejeitava a ideia de ser mãe antes do nascimento do filho. De fato, algumas planejaram e desejaram a criança, mas a realidade da maternidade muitas vezes gera uma quebra de expectativas capaz de derrubar a mais desejante das mulheres. Outras mulheres, por sua vez, nunca desejaram ser mães mas tornaram-se mães por “n” motivos, e infelizmente a situação tornou-se um fardo muito pesado (como no caso de Eva).
Por outro lado, a criança de uma mãe depressiva também sofre... Atrasos importantes no desenvolvimento são comuns, especialmente em áreas neurocognitivas e psicomotoras, além de maior vulnerabilidade para desenvolver sintomas depressivos e déficits de aprendizado durante o crescimento. No filme Precisamos falar sobre o Kevin, o garoto apresenta a maioria desses atrasos (como usar fraldas até por volta dos sete anos de idade, por exemplo).
Diante disso tudo, ainda temos as mulheres que são felizes sendo mães e as mulheres que não desejam e nunca desejarão ser mães. Existem mulheres que gozam de seus 60 anos e não se arrependem da ausência da maternidade, pois construíram suas vidas em torno de outras bases e encontraram a felicidade de outras maneiras, assim como existem mulheres que amam a maternidade acima de todas as coisas e são felizes com seu papel na sociedade.
É preciso entender, acima de tudo, que não existe apenas um caminho para seguir. Existem dois: o sim e o não, e cabe a cada uma decidir qual caminho trilhar, seja através do planejamento ou da surpresa.
Desta maneira, a obra de Lionel nos permite questionar não somente o nascimento da maldade, mas também os mitos que envolvem a maternidade. Em Precisamos falar sobre o Kevin, mãe e filho são marcados por uma relação desajustada e sem afeto que acaba em uma situação trágica e irreversível. Na vida real, embora muitas vezes não tão expressivas, as marcas deixadas pela pressão e pelas expectativas não alcançadas são grandes para ambos.
É preciso desmistificar o ideal feminino de maternidade e também a depressão pós-parto, para garantir uma base de apoio para a mãe que se sente sozinha e incapaz de lidar com sua própria vida, pois a doença existe e continuará existindo, portanto não podemos continuar ignorando-a em nome de um mito antigo sobre a vocação feminina. Para elucidar, segue trecho de uma entrevista da cantora Adele para a revista Vanity Fair em 2016:
"O meu conhecimento sobre pós-parto é que você não quer estar com a sua criança. Você fica preocupada em machucar o seu filho, fica preocupada se está fazendo o certo. No entanto, eu era obcecada com o meu filho. Eu me sentia muito incapaz. Eu senti como se tivesse feito a pior decisão da minha vida".
Como o título da aula de Silvia Marques adverte, PRECISAMOS FALAR SOBRE O QUE AS MULHERES QUEREM.
Querem casar? Querem ser mães? Querem adotar um gato?
Afinal, o que querem as mulheres?
Para saber as respostas, pergunte individualmente a cada uma delas. Abram os ouvidos para ouvir e os olhos para ver. Chega de ignorar a verdade por trás da fantasia.

Comentários
Postar um comentário