A Companhia dos Lobos - Chapeuzinho Vermelho dos anos 80 e a sexualidade feminina




A Companhia dos Lobos, 1984. Direção de Neil Patrick Jordan. Roteiro de Neil Jordan e Angela Carter. Baseado no conto de Angela Carter.



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Chapeuzinho Vermelho dos anos 80 e a sexualidade feminina 


Rosaleen é uma garota que vive em um casarão rente à floresta com seus pais, sua irmã mais velha e seu cachorro, um pastor alemão, da década de 80. Vivendo a adolescência, a menina passa a maioria de seus dias trancada no quarto, longe da família, comportamento típico dos jovens de sua idade, passando pela puberdade.

Sua irmã a chama de “peste”, a acusa de usar suas maquiagens escondido e de se sentir “diferente e especial”, e a partir desses aspectos do relacionamento conturbado das duas, podemos entender o primeiro elemento do longo sonho de Rosaleen: a morte de sua irmã, atacada por lobos em uma floresta densa e iluminada pela luz da lua cheia.

No sonho, a família vive em meio à floresta, em uma vila medieval. Após a morte da irmã, Rosaleen se torna a única filha do casal, o que retrata seu desejo por protagonismo, pois em uma das cenas, a avó da garota diz que “agora que sua irmã morreu, farei para você uma capa de lã vermelha, e não para ela”, e em outra cena, mais a frente, a mãe de Rosaleen diz que “você é a preferida de sua avó”. Rosaleen assume então o papel principal da história onírica, explicitamente influenciada pelo conto da Chapeuzinho Vermelho.

A avó, uma senhora rígida e protetora, conta histórias sobre lobisomens à neta, com intuito de alertá-la sobre os perigos da floresta, mas podemos interpretar os lobisomens como a sexualidade de Rosaleen e as histórias assustadoras como uma forma de manter a garota longe dos “homens de sobrancelhas juntas” (lobisomens), pois assim como a natureza dos lobos, a sexualidade que floresce na menina é selvagem, instintiva e difícil de ser controlada.

Na vila, Rosaleen é constantemente cortejada por um garoto de sua idade, o qual ela considera infantil, mas permite uma aproximação, por curiosidade. Os pais da garota incentivam a filha à conhecer um futuro marido, mas a avó não gosta da ideia de qualquer garoto ou homem cortejando sua neta. Certo dia, Rosaleen e o menino vão caminhar na trilha da floresta para se conhecerem, e todos alertam a menina para “se manter na trilha e não desviar do caminho, pois os lobos estão à espreita”, o que podemos entender como uma indireta para a garota não ceder aos seus impulsos sexuais. Durante o passeio, o garoto investe amorosamente, recebe um beijo, mas logo é afastado e desafiado por Rosaleen em uma brincadeira: se ele conseguir encontrá-la, ela o beijará novamente, mas isso não acontece, pois a menina se esconde em cima de uma árvore e ele não a encontra, sendo afugentado da floresta pela presença de um lobo.

Escondida em cima da árvore, Rosaleen descobre um ninho com ovos que, ao se abrirem, revelam pequenas estátuas de bebês. Quando a menina mostra uma dessas estátuas para sua mãe, essa se mostra muito feliz e orgulhosa. Podemos analisar a descoberta desses pequenos ovos como a chegada da primeira menstruação, pois em determinado momento a mãe, após a descoberta da filha, diz que “um inverno rigoroso logo chegará”, mas que elas estão protegidas enquanto ficarem dentro de casa, ou então, analisando sob outra ótica, “os desejos sexuais virão, mas enquanto a garota estiver longe dos homens, sua inocência estará intacta”.

A partir deste incidente, Rosaleen passa a evitar a presença do garoto, reforçando suas impressões de que garotos são imaturos e não podem satisfazer seus sentimentos.

Na mesma noite em que a menina encontra os tais ovos, presencia a mãe e o pai fazendo sexo no meio da noite. Ela observa, curiosa, e pergunta à mãe, na manhã seguinte, se ela se machucou durante o ato, mas lhe é explicado que nem sempre os homens machucam as mulheres quando estão em cima delas. 


O ápice do filme acontece quando, ao levar uma cesta de guloseimas para sua avó e ser advertida para se manter na trilha e não falar com nenhum estranho no caminho, Rosaleen se encanta por um estranho “homem de sobrancelhas juntas” e cabelos longos que a aborda na floresta. Ele, misterioso, logo à deixa à vontade e desperta nela uma curiosidade que nunca teve com outros meninos da vila.

O homem apresenta à Rosaleen uma bússola, explica como o aparelho funciona e a deixa incrédula, porém encantada. Ele diz que a vida é muito mais interessante quando não se segue o caminho tedioso da trilha da floresta e que não há perigo de se perder no caminho, pois a bússola sempre aponta para o norte. Podemos interpretar esta cena como um incentivo ao fim do comportamento infantil e controlado da adolescente ao início de sua vida sexual.

Encantada pelo charme e pelas belas palavras do homem, Rosaleen diz para ele que está cansada dos meninos da vila, pois são apenas crianças. É possível notar nesse diálogo que a menina demonstra muito mais interesse pelo rapaz desconhecido do que pelos outros meninos, pois ele, com sua idade mais avançada e conhecimentos, é capaz de aguçar a natureza destemida da adolescente.

Durante todo o filme, o roteiro nos mostra que Rosaleen é uma jovem corajosa ousada, e essa característica é melhor trabalhada quando, em um ato imediato, a garota faz um trato com o homem desconhecido: se ele chegar à cabana da vovó antes dela, caminhando apenas pelo interior da floresta, ela lhe dará um beijo.

Rosaleen não se apressa para chegar à cabana da avó, o que demonstra que desejava o beijo tanto quanto ele.

O homem, ao contrário da menina, logo chega na cabana, fazendo uma alusão ainda mais clara à história clássica dos contos de fadas, onde o lobo devora a vovó e veste suas roupas, para enganar Chapeuzinho.

O homem entra na cabana, mata a avó e espera pacientemente. Quando Rosaleen chega, logo percebe que a avó está morta e que o homem sedutor é, na verdade, um lobisomem, mas não tenta fugir ou se esconder: afronta o invasor e o questiona sobre sua verdadeira natureza. Pergunta se ele sente “mais homem ou mais lobo”, e ele responde que se sente “metade homem, metade lobo”.

As cenas seguintes, onde Rosaleen e o lobisomem se enfrentam e exploram as curiosidades por trás de suas intenções, são repletas de simbolismos ao conto de fadas original e também são repletas de uma sensualidade implícita. É possível interpretar esse enfrentamento dos personagens como a concretização da sexualidade de Rosaleen, pois quando o homem, ferido pela menina, se transforma em lobo, com a mesma mão que o machucou, Rosaleen o conforta, contando a história de uma loba solitária que, ao sair do “mundo inferior” por curiosidade de conhecer o mundo dos homens, foi ferida e decidiu voltar à sua verdadeira natureza, de onde nunca deveria ter saído. Podemos interpretar que Rosaleen fala de si própria ao narrar essa história, pois o “mundo dos homens” somente à machucou ao tentar controlá-la e afastá-la de sua verdadeira natureza de mulher.




O lobo não demonstra nenhuma agressividade com a menina, sendo totalmente controlado por ela, o que pode significar que finalmente Rosaleen tem o controle sobre seus desejos e sobre os homens, que antes tanto a assustavam.

Na próxima cena, vemos dois lobos correndo pela floresta, e um deles é a adolescente transformada, o que indica o final da metamorfose e o abraço total ao seus instintos e maturidade sexual. Esse é o fim do longo sonho da garota.

Na última cena, vemos Rosaleen ainda dormindo em sua cama, na década de 80, com as bochechas e os lábios avermelhados, indicando a inocência que aos poucos foi deixando para trás em seu sonho, mas não na vida real. Sua casa é invadida por centenas de pastores alemães e um deles, o maior de todos, invade seu quarto pela janela, a fazendo gritar muito alto, assustada, dando fim à história e deixando uma porta aberta para os questionamentos sobre o que foi sonho e o que foi realidade.

A Companhia dos Lobos é um filme baseado em um conto de Angela Carter, escrito durante o auge do movimento pós-feminista da Inglaterra, com a ascensão de Margaret Tatcher ao cargo de Primeira Ministra Inglesa. A influência do fato histórico é visível em toda a obra, onde a personagem principal renúncia a inocência imposta à ela e assume, corajosamente, seus desejos, sua liberdade e sua figura de mulher-selvagem, totalmente contrária ao que esperam dela. Durante o filme, as histórias sobre lobos retratam os relacionamentos amorosos e sexuais entre homens e mulheres, a submissão do feminino e o perigo da figura masculina, elevando, gradativamente, a força da mulher ao longo dos acontecimentos, concluindo a ascensão com Rosaleen “domesticando” a fera e transformando-se, também, em fera, desmistificando qualquer diferença entre a natureza do homem e da mulher.


FERNANDA OZ

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