As Boas Maneiras - Lobisomens, mães e amor à liberdade


Dirigido e roteirizado por Juliana Rojas e Marco Dutra. Com: Isabél Zuaa, Marjorie Estiano, Cida Moreira, Andréa Marques, Felipe Kenji, Nina Medeiros, Neusa Velasco, Gilda Nomacce, Naloana Lima e Miguel Lobo.

As Boas Maneiras, filme de Juliana e Marco, é uma agradável surpresa do cinema brasileiro capaz de reunir elementos clássicos do terror com a força e sutileza dos contos de fadas.

Contudo, este texto não tem como objetivo fazer uma critica formal ao longa, mas expor ideias que floresceram no correr da história. 

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 Lobisomens, mães e amor à liberdade

Logo no inicio do filme vemos a personagem Clara, uma mulher negra, ser orientada na portaria de um prédio a usar o elevador de serviço. Fica clara a critica social, embora tal cena tenha tido um significado mais forte para mim, que sou filha de empregada doméstica e aprendi desde muito cedo que elas - e nós, seus filhos - usamos o elevador de serviço, pois os moradores não gostam de se misturar nas áreas comuns.

Em seguida, Clara se apresenta à Ana, mulher branca, de classe alta, que procura uma babá para seu futuro filho. 
Nas cenas em que Ana e Clara conversam sobre os detalhes da vaga de trabalho, outro elemento familiar surge: babás que recebem outras funções, tornando-se além de cuidadoras, empregadas domésticas, ou vice-versa.
O roteiro é objetivo em narrar esses pequenos abusos que de tanto serem feitos, acabam tornando-se comuns. 
Por um certo período da história dividimos com Clara as angustias de desesperadamente precisar de um emprego e, então, ser a empregada da senhora rica com muito tempo ocioso em casa. Mas o que no começo surge como uma possível antipatia por Ana, logo é encoberto pelo clima de tensão sexual que surge entre as duas.

Clara é introspectiva e misteriosa, enquanto Ana é mais despojada e aberta, mas possuem em comum o fato de serem solitariamente sozinhas e apreciarem a liberdade que possuem. Juntas, elevam a história inicial à um  "quase filme de romance", onde bizarros acontecimentos são superados com um carinho e delicadeza tão suaves e intensos que nos angustiam e nos fazem questionar onde esse envolvimento vai parar.

A gravidez de Ana evolui e com ela, estranhos acontecimentos em noites de lua cheia. 
Desejo por carne. Por sangue. Elementos clássicos em filmes de lobisomens.

Clara, ao invés de se afastar, entra fundo na vida e nos mistérios de Ana, tornando-se além de sua empregada, sua parceira. Tal relação dupla é incomoda, pois ao mesmo tempo em que torcemos pelo relacionamento das personagens, sentimos um elo abusivo fortalecido pelo vínculo empregatício. 

A partir deste ponto da história, as demonstrações de carinho tornam-se maiores, mas ainda envoltas por um clima de estranheza. Esses dois fatores juntos (carinho e estranheza), remetem ao núcleo da primeira paixão homossexual da vida de alguém, onde o amor é sempre assombrado por algo externo e ameaçador, que em As Boas Maneiras são os comportamentos incomuns de uma gestante, totalmente influenciados pelo calendário lunar.

Temos certeza de que que o pai da criança é um lobisomem quando Ana conta a história de como engravidou de um homem misterioso que teve contato apenas uma vez na vida, após uma festa em sua antiga cidade, e de como nessa mesma noite teve um encontro assustador com uma criatura magnifica que a encarava escondida entre as árvores.

Ana não se sente feliz com a gravidez e sabemos, mesmo sem que ela fale, que a criança não é desejada.

Quando inesperadamente a criança nasce - da pior forma possível, fazendo jus ao gore - vemos mais uma vez a liberdade e o amor entrarem em cena.
Ana não resiste ao parto e Clara se despede com um beijo em seus lábios ensanguentados. Ao contrário dos contos de fadas, onde um beijo sempre resolve tudo, aqui sabemos que nada será resolvido. 

O bebê (ou filhote), é horrendo. Se arrasta e agoniza pelo chão, sufocado pelo cordão umbilical. Clara tem a chance de matá-lo, mas se enternece com a vontade de viver do pequeno lobo e o salva. Enrola a criatura em panos, pega sua mala e vai embora do apartamento, abandonando o corpo morto de Ana e arriscando sua liberdade e segurança. 

No meio do caminho, apavorada, deixa o bebê na beira de um rio e dá as costas, disposta a esquecer toda a loucura sobrenatural à qual foi exposta, mas novamente, ao ouvir o choro forte de um ser que deseja muito viver, volta atrás e o leva consigo para casa, dando o sangue de seu próprio seio para alimentá-lo, tornando-se então, contra todas as possibilidades, sua mãe.

Agora temos uma divisão no filme, onde somos apresentados novamente à Clara, agora mais velha, menos introspectiva e mais sorridente. Ao seu lado, o menino Joel.

Joel é uma criança normal, de aparência humana, que passeia entre uma personalidade despojada e um tanto introspectiva, mesclando características das suas personagens iniciais. Porém, o ponto principal desta segunda rodada é simples: como criar uma criança lobisomem? 

Clara fez a coisa mais certa e difícil de se fazer: construiu um quartinho secreto onde, em noites de lua cheia, Joel fica trancado e acorrentado, para que não fira a si ou outras pessoas. 

Observar uma criança ser amarrada com grossas correntes de ferro nos punhos e pescoço não é agradável, mas o amor e a preocupação da mãe nos fazem entender que tais medidas são cruéis, porém necessárias e inevitáveis, como quando uma mãe, desesperada com o filho viciado em drogas, resolve amarrá-lo por medo de que ele saia pela porta mais uma vez e não volte mais. 

Algo que me chamou atenção foram os detalhes do quartinho secreto. Sem janelas, como uma caixa - uma jaula -, possuía elementos alegres e infantis, como luzes coloridas e ursinhos de pelúcia, numa tentativa de tornar a experiência menos traumatizante para Joel. O garoto, para tornar tudo ainda mais triste, vai ao quarto de livre iniciativa desde que tinha apenas um ano de idade. 

Na escola, Joel tem um melhor amigo e uma melhor amiga que demonstram grande afinco por ele, mas se vê impedido de participar de algumas atividades noturnas, como a quadrilha de festa junina, pois tais eventos coincidem com as noites de lua cheia.
Muito jovem para entender a gravidade de sua natureza, assistimos um doce Joel se tornar um tanto quanto revoltado com as escolhas da mãe: ele quer sair a noite com os amigos, quer comer carne, quer se sentir como as outras crianças, ser livre.

Clara esconde um retrato de Ana e o observa de tempos em tempos, demonstrando saudades e nos fazendo novamente notar sua solidão como mulher. 

Certo dia, quando Joel encontra este retrato e parece então, e somente então, notar a diferença de cor entre ele e Clara, questiona o motivo das diferenças e quando ouve a verdade, reage agressivamente, porém de maneira esperada para uma criança que descobre de forma brusca que é adotada... Grita, diz que Clara não é sua mãe verdadeira e se recusa a entrar no quarto ou obedecer qualquer uma de suas ordens. Pela primeira vez na história, vemos Clara aumentar o tom de voz e agir de maneira mais enérgica, enfatizando ser mãe e merecer respeito e obediência. 

Do ponto de vista psicológico, é saudável deixar as crianças expressarem raiva, e tratando-se de crianças adotadas, mais ainda, pois é necessário que elas sintam-se a vontade para testar a veracidade do amor dos pais, que embora rejeitados, mantêm-se firmes em seus papéis de autoridade, de mãe e pai. Caso as crianças adotadas sintam medo em demonstrar raiva dos pais e perdê-los, configura-se um problema de confiança que deve ser corrigido.

A partir deste ponto, quando Joel desenvolve curiosidade por sua origem e mágoa de Clara, sua mãe, somos expostos ao fatores do amor e da liberdade mais uma vez.

O garoto deseja ser livre, mas há um preço alto demais por sua liberdade... 
Em um ato de rebeldia, com um plano forjado em um raciocínio tipicamente infantil, foge com o melhor amigo à procura do pai e acaba preso em um shopping center após o horário de funcionamento.
Com a lua cheia pulsando no céu, Joel transforma-se pela primeira vez fora do quartinho, e temos uma visão completa de sua natureza selvagem. Inconsciente de sua humanidade, o jovem lobo ataca o amigo e faz sua segunda vitima, deixando apenas um rastro de sangue no local, tendo devorado por completo todo o resto.

Durante os períodos em que Joel está sumido, Clara entra em um estado de profunda angustia, pois está de mãos atadas, sem poder acionar a polícia para procurar o garoto, pois o que encontrariam seria muito mais do que apenas um menino perdido. 

Quando ele finalmente retorna ao lar, ensanguentado e sem lembranças do que fez, Clara sabe que o pior aconteceu e decide que precisam fugir, antes que o segredo seja relevado.
Como mãe, ela é capaz de fazer qualquer coisa para manter seu filho à salvo, mas as coisas fogem do controle quando o garoto, num impulso, a tranca no quartinho e vai para a festa junina que tanto queria ir. 

Um misto de raiva e compreensão rodeia as escolhas de Joel, pois apesar de erradas, todas suas últimas decisões buscam uma liberdade e autonomia que jamais foi possível experimentar, e todos somos capazes de entender esse desejo.

Nos momentos finais do filme, Clara consegue sair do quartinho e ir atrás do menino, que sob influência da lua, está completamente transformado e prestes a atacar a melhor amiga, com quem iria dançar quadrilha. Num primeiro instante, pensamos que finalmente Clara faria o que quase fez muitos anos atrás, no nascimento da criança, mas com a estratégia e coragem de uma mãe que protege seu filhote, impede que o garoto faça mais uma vitima e consegue levá-lo embora para casa com vida.

Agora temos a primeira visão de mãe e filho-lobo. Acorrentado, Joel é feroz e não reconhece Clara, mas conforme ela fala e canta para ele, algo muda em seu olhar e ele a reconhece como mãe, se acalma, se humaniza. É neste momento que temos a bonita cena de "pata-mão", como na imagem disponível no inicio desse texto.

Mas como tragédia pouca é bobagem, a despeito do avanço na relação de Clara e Joel, uma multidão enfurecida vêm ao seu encontro, como nos tempos antigos de caça às bruxas, pronta para fazer justiça com as próprias mãos.

É possível entender a revolta da população, que se sente ameaçada, e esse é um ponto importante para pensar. Quantas vezes fazemos parte da multidão enfurecida e não questionamos quem é o monstro que caçamos?  

O final da trama nos acaricia com um vislumbre do amor de Clara e Joel e ao mesmo tempo nos fere com a incerteza de seus futuros, ameaçados pela multidão colada em seus batentes. 

No entanto, outro pensamento surge junto à esse: 

Por quem devo temer?

Assim como Joel é ameaçado pela população enfurecida em sua porta, a população enfurecida é ameaçada por um Joel selvagem e com fome de carne.

No fim, em As Boas Maneiras, já não havia distinção entre caça e caçador. 

O que fica são as marcas de uma história de lobisomens que esfrega em nossa cara a força do amor de uma mãe e o desejo intrínseco pela liberdade.



FERNANDA OZ





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